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Como estratégias de produto podem ajudar o jornalismo

Lara Ximenes 11 min de leitura 12 de novembro de 2021
produto jornalismo

Usada em empresas de tecnologia, a visão de produto pode otimizar a distribuição e monetização de notícias e reportagens em formatos inovadores.

Em startups e equipes de tecnologia da informação, o produto não é apenas uma entrega ao cliente. No jornalismo, também não.

Segundo o autor Marty Cagan, uma das maiores referências em gestão de produtos digitais, um produto é aquilo que resolve um problema. 

Esse conceito pode ajudar jornalistas, publishers e veículos de comunicação a monetizarem melhor o seu conteúdo. Afinal, conquistando assinantes de produtos digitais jornalísticos, é possível garantir uma receita recorrente para o veículo que não dependa tanto assim da publicidade.

Em jornalismo, os produtos são uma forma de entregar conteúdo informativo em formatos inovadores, ao mesmo tempo em que resolvem os problemas dos usuários assinantes. 

Ao longo deste artigo, vamos destrinchar a visão holística de produto, bem como suas características e nuances aplicadas ao jornalismo. Essas definições e lições foram apresentadas pela Product Director e jornalista Paty Gomes, no curso “Estratégias de produto no jornalismo: Como alinhar conteúdo, audiências, negócios e tecnologia”, do Knight Center for Journalism in the America.

Os pilares da mentalidade de produto no jornalismo

  1. Gerar valor para o assinante: “meu assinante vai querer isso?”
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  2. Produzir de acordo com a missão e linha editorial da sua organização: “de acordo com os valores da nossa organização, deveríamos fazer isso?”
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  3. Fazer sentido financeiro para a organização: “o conteúdo desse produto vai ajudar a nossa organização a pagar suas contas?”

Para que um bom produto jornalístico seja desenvolvido, esses pilares precisam coexistir. Se todas as respostas para as perguntas acima forem sim, seu produto tem potencial de dar certo.

São exemplos de produtos jornalísticos:

 

  • Apps como “NYT Cooking App”, do The New York Times

    Por US$0,50 por mês, assinantes do NYT Cooking App têm à sua disposição milhares de receitas para todos os gostos, desenvolvidas por experts na culinária. Além disso, o app oferece vídeos para auxiliar os usuários no preparo dos pratos e um espaço para organizar e salvar suas receitas favoritas.

  • Inteligências Artificiais como o “JOTA Pro Poder”, do portal JOTA Info

    O portal de jornalismo político JOTA desenvolveu um serviço que ajuda empresas a compreenderem melhor os rumos políticos do país, aliando uma cobertura jornalística altamente qualificada e técnica com tecnologia e ciência de dados. Os assinantes recebem, por WhatsApp, previsões confiáveis sobre votações em andamento e também relatórios detalhados e análises apuradas sobre os Três Poderes por quem acompanha e entende os bastidores políticos.
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  • Newsletters como a “Meio”, do canal Meio

    O boletim informativo (ou newsletter) “Meio” surgiu como um resumo diário de notícias, criado pelo jornalista Pedro Doria e pelo empreendedor Vitor Conceição. De segunda a sexta, os leitores encontram uma curadoria sucinta com as notícias mais importantes do dia, feita por uma equipe de jornalistas qualificados. Apesar de gratuita, o “Meio” também conta com uma assinatura premium, que oferece um boletim extra aos sábados, editoria diária de economia e acesso ao Monitor, o software usado pelos repórteres para ver as notícias de todos os sites em tempo real.

E o que esses produtos têm em comum?
  • São escaláveis: uma entrega atende milhares de usuários;
  • Evoluem: para melhor atender, estão sempre estudando melhorias e novas versões;
  • Vão se revelando aos poucos;
  • Possuem escopo e orçamento abertos para continuar evoluindo e revelando as novas versões supracitadas;
  • Precisam de consistência mais do que intensidade: ou seja, comprometimento em resolver o problema (no caso do NYT Cooking App, por exemplo, ajudar quem não sabe cozinhar é mais importante que ensinar receitas muito elaboradas e complexas).
Mas esses produtos não são, na verdade, projetos?

Não! Assim como na área de tecnologia, existem várias diferenças entre produto e projeto também no jornalismo. Projetos geralmente possuem começo, meio e fim, como por exemplo reportagens especiais e eventos como o Festival Piauí de Jornalismo, da Revista Piauí, e a série de podcasts Praia dos Ossos, da Rádio Novelo. Enquanto isso, os produtos costumam ser diários e/ou contínuos, sempre passando por estudos e mudanças para melhor se adequar às necessidades de seus assinantes.

Outra grande diferença é que os projetos possuem um escopo e orçamento fechados, já que ele será revelado ao público de uma só vez. Por exemplo: um edital de jornalismo que destina uma verba específica para financiar uma reportagem especial que seja entregue de acordo com os prazos, requisitos e temáticas estabelecidas pelo próprio edital. Ou seja, o projeto geralmente precisa fazer sentido para quem financia, enquanto o produto precisa fazer sentido para quem paga para usá-lo (usuários e assinantes).

O que as redações, veículos e jornalistas precisam pensar na hora de desenvolver um produto

  • As suas funcionalidades


    Entregar conteúdo útil e funcional é fundamental. E, para isso, é preciso conhecer as dores e necessidades do seu assinante. Fazer uma persona deste assinante pode ajudar bastante no processo.

  • A tecnologia que possibilita esta funcionalidade


    Além do conteúdo relevante, também não podemos esquecer de pensar na distribuição e avaliação do produto. Essa visão holística, que vai além da produção jornalística, precisa abarcar um diálogo com profissionais de outras áreas sobre qual formato e tecnologia serão necessários para entregar o produto da melhor forma.

  • Design focado na experiência do usuário (UX Design) e User Research;


    Como já falamos, os produtos resolvem problemas! Para descobrir quais problemas devem ser resolvidos, é preciso colocar o assinante do produto no centro, descobrindo suas características, objetivos, comportamentos e dores. Pesquisas com métodos qualitativos e quantitativos, desenvolvimento da persona, frameworks como o mapa de empatia e o lean canvas: todas essas estratégias estão dentro do UX Design/User Research e podem ser aplicadas no desenvolvimento de produtos jornalísticos.

Publishers: ainda podem sobreviver sem um modelo de assinatura

Outros pontos igualmente relevantes para considerar ao desenvolver um produto jornalístico:⠀⠀⠀⠀

  • Monetização (mensalidades, planos, pacotes);
  • A atração e aquisição de usuários e clientes (divulgação e alcance);
  • A inclusão de experiências off-line (se necessário);

Agilidade no jornalismo

Com a virada para o século XXI, a demanda por soluções tecnológicas aumentou intensamente. Para lidar com isso, a engenharia de softwares precisou atualizar sua gestão.

Os desenvolvedores e engenheiros de software perceberam que os antigos pilares da área de desenvolvimento já não serviam mais para aquele momento, pois levavam muito tempo para serem concluídos.

Assim surgiu, em 2001, o Agile Manifesto, idealizado por 17 autores que se comprometeram a seguir e disseminar os princípios e valores do documento. A partir dele, veio a metodologia ágil, que revolucionou o relacionamento entre times de desenvolvimento e clientes. 

Eis os quatro principais valores do manifesto ágil:

  1. Priorizar indivíduos e interações mais do que processos e ferramentas;
  2. Ter o software em funcionamento é mais importante do que ter uma documentação abrangente;
  3. Colaboração com o cliente é muito mais que negociação de contratos;
  4. Responder a mudanças vai além de seguir um plano.

Ainda que haja valor nos itens à direita, valoriza-se mais os itens à esquerda das frases acima.

E como aplicar a agilidade no jornalismo?

  1. Desenvolvendo uma cultura de autonomia e auto-organização: cada time deve ter os recursos que precisam para entregar o produto;
  2. Criação de rotinas: reuniões recorrentes com objetivos específicos;
  3. Cerimônias ágeis: na cultura ágil e de produto, as cerimônias ágeis existem com o objetivo de acompanhar o que cada membro da equipe está fazendo em prol do produto, sempre com o objetivo de agregar valor ao que será entregue ao cliente.

Correlatos da cultura ágil e de produto nas redações e veículos⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Reunião de pauta Daily 

Na realidade das redações, as reuniões de pauta são corriqueiras. Na cultura ágil, temos as daily meetings, reuniões de até 15 minutos para acompanhar o andamento do produto.

Entrevista com especialistas de diversas áreas Colaboração com especialistas de outras áreas

Outra semelhança entre a área de tecnologia e a comunicação é o contato e a colaboração direta com profissionais de campos distintos. Afinal, entrevistar especialistas de áreas diversas é algo comum ao ofício do jornalismo. Da mesma forma, uma equipe de produto está sempre em contato com outros times e profissionais (pesquisadores, engenheiros de dados, desenvolvedores e designers, por exemplo).

Adaptação rápida à mudanças na pauta Ajuste na rota do produto 

É comum ao cotidiano jornalístico lidar com mudanças de última hora, principalmente na editoria de política, onde ministros renunciam, plenárias são adiadas e PEC (Propostas de Emenda à Constituição) são sugeridas às leis que já existem. Assim é o produto: ele também vai precisar de adaptações, mudanças de rota e ajustes à medida em que for sendo testado por usuários ou à medida que as necessidades desses usuários mudem.

Em conclusão: derrubar objeções é necessário para inovar.

Para veículos de comunicação, ter uma receita focada no leitor é tão importante quanto uma receita advinda de anúncios publicitários. Afinal, é o leitor quem consome o seu produto final: as notícias, artigos, reportagens especiais, apps, etc.

Por isso, não tenha medo de embarcar nessa nova forma de fazer jornalismo, que alinha tecnologia e comunicação para entregar conteúdos em formatos inovadores para os assinantes.

A experiência dos jornalistas com comunicação é um grande diferencial (e uma vantagem) para o time de produto que eles possam vir a integrar.

Afinal, trabalhar com alguém que tem habilidade com a escrita ajuda o time de produto na hora de documentar processos de forma assertiva.

Além disso, tão importante quanto a estratégia de um produto, é que todas as pessoas da equipe estejam alinhadas sobre as decisões e caminhos decididos sobre ele. E com uma boa comunicação, isso fica bem mais fácil 😉

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